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:: Agronegócio
é credor do Brasil
Roberto Rodrigues*
Estamos terminando mais um ano em que o agronegócio
foi a grande alavanca da economia brasileira: 34% do PIB, gerando
37% de todos os empregos no País e participando com 42% das
nossas exportações, com um saldo comercial do mesmo tamanho
do saldo total do Brasil, da ordem de 32 bilhões de dólares.
E é bom conceituar agronegócio: trata-se da
soma das atividades de cada cadeia produtiva ligada ao campo,
à agricultura ou pecuária. Aí entram as pesquisas científicas,
os supridores de insumos (fertilizantes, sementes, defensivos,
máquinas) e serviços (crédito, seguro), a produção propriamente
dita (e aqui estão todos os produtores pequenos, médios, grandes,
familiares ou empresariais, e todos os trabalhadores rurais),
a armazenagem, a industrialização, embalagem e distribuição.
Portanto, uma cadeia produtiva começa na prancheta de um pesquisador
científico e acaba na gôndola de um supermercado.
No segundo semestre de 2004, os preços de arroz,
algodão, soja, milho e trigo despencaram, pois todos registram
produções recordes na safra 2004/2005, em nível mundial. A produção
global de algodão é 20,6% maior que a média dos quatro anos
anteriores. No Brasil, será 42,5% maior! Trigo tem uma produção
mundial 8,2% superior à mesma média, e, no Brasil, cresce 77,5%!
A produção mundial de milho cresceu 14,8% sobre a média, e,
no Brasil, só 2,7%, mas temos o maior estoque nacional de passagem
dos últimos anos. Para a soja, os números também são impressionantes:
23,2% no mundo e 32,1% internamente. E o arroz, só no Brasil,
teve aumento de 9,3% sobre a média dos quatro últimos anos,
sem falar no crescimento imenso das produções da Argentina e
do Uruguai, que, mercê do Mercosul, entram em volumes perigosamente
grandes no Brasil, assim como o trigo, o vinho e outros produtos.
Tudo isso, somado à expectativa da nossa safra
de grãos, de 132 milhões de toneladas (contra 119 milhões da
safra anterior), explicam a queda dramática dos preços desses
produtos, em todos os países, derrubando a renda rural brasileira
na segunda metade do ano. Tais dados sinalizam um 2005 preocupante,
particularmente porque os custos de produção (sobretudo fertilizantes
e equipamentos) tiveram expressivo aumento, em média da ordem
de 15% (seja por causa da maior demanda, seja pelo aumento dos
preços do petróleo e do aço).
Depois de três bons anos, em que o agronegócio
foi a alavanca vigorosa da economia, há um conjunto de perdas
possíveis no horizonte. Por outro lado, vários outros setores
continuavam bem no fim de 2004 e prometem ser ainda melhores
em 2005. É o caso das carnes (exportações, neste ano, de 5,5
bilhões de dólares, para mais de 140 países), do açúcar (exportações
de 3 bilhões), e do café (1,6 bilhão).
Mesmo os produtos com perdas de preço tiveram
expressiva participação nas exportações. A soja foi a campeã:
11 bilhões de dólares de grãos e de farelo. Exportamos também
3 bilhões de dólares de papel e celulose, outros 3 bilhões de
couro e calçados, 1,4 bilhão de algodão, 1,2 bilhão de sucos
de frutas, sem falar em cacau, frutas e flores.
Em suma, 2004 foi um ano positivo, embora alguns
setores do agronegócio tenham apresentado perda de renda do
agricultor. E 2005, deve repetir o quadro, com o Governo precisando
acionar preventivamente seus instrumentos legais, tradicionais
ou inovadores (como os novos papéis de comercialização recentemente
criados), para mostrar ao mercado que não vai deixar a renda
rural cair mais. Ao agir assim, o Governo irá evitar novo endividamento
que não interessa a ninguém.
Afinal, o agronegócio é credor
do Brasil. E é com este saldo credor que o agronegócio entra
otimista em 2005, consciente de que há muita coisa por fazer:
melhorar a defesa sanitária, incrementar a pesquisa e a biotecnologia,
investir em infra-estrutura e logística, organizar melhor as
cadeias produtivas, abrir novos mercados e fazer boa promoção
comercial, inibir a entrada de produtos que destruam a nossa
capacidade produtiva, modernizar vários dos nossos instrumentos
legais, serão algumas das tarefas que temos pela frente.
Mas esse formidável agronegócio brasileiro já está desenhando novos
modelos, cada dia mais eficientes e competitivos, como é o caso
do biodiesel, e não teme os obstáculos que se apresentam pela
frente.
Vamos enfrentar todos os problemas, e vamos resolvê-los.
É assim que pensa o Governo Brasileiro, assim trabalha nosso
Legislativo Federal e assim está disposta esta heróica classe
produtiva que, apesar de todo o protecionismo internacional
e apesar de todas as dificuldades internas, vai continuar sua
marcha para transformar o Brasil, em poucos anos, finalmente,
no celeiro do mundo.
*Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
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